terça-feira, 3 de dezembro de 2013

Autonomia e o sujeito sem limites

Geração rede: o sujeito sem limite por Jean-Pierre Lebrun/Equipe Fronteiras Jean-Pìerre Lebrun, diretor da Associação Freudiana da Bélgica e um dos fundadores da Associação Lacaniana Internacional, veio ao Fronteiras do Pensamento para abordar a temática Subjetividade e laço social, apresentando a visão da psicanálise sobre o novo sujeito horizontal na sociedade da rede. Aqui, vemos a posição de Lebrun sobre os laços familiares. FRONTEIRAS.COM | assista aos vídeos (legendas no canto superior direito do player - símbolo "CC") - O papel do pai não é mais o mesmo - Lebrun analisa como o pai contemporâneo separa a mãe e o filho, para que este possa crescer enquanto indivíduo - A morte de Deus e a expulsão do paraíso - Lebrun reflete sobre as mudanças na vida e nos hábitos da sociedade desde o início da era moderna Uma coisa que até então pouco se via: nos primeiros dias em que os pais vão levar seu filho à escola, observa-se cada vez mais que não são as crianças que choram, como antes, mas os pais. Esses pequenos sinais parecem nos dizer que alguma coisa se passa. E podemos, é claro, nos perguntar do que se trata. Na realidade, também os governos estão se perguntando do que se trata e de que maneira ajudar o que eles chamam de parentalidade. A palavra parentalidade vem substituir outras mais habitualmente utilizadas, como paternidade ou maternidade. E, como podem perceber, no termo parentalidade não se sabe muito bem quem é o pai e quem é a mãe. Haveria uma função parental assexuada que estaria em jogo. Pode parecer um pouco banal, pode parecer insignificante. Mas, se refletimos um pouco, podemos nos perguntar: como se explica que uma coisa que durante séculos se transmitiu de geração a geração sem nunca precisar de estudo ou de escola para se transmitir – ou seja, que para ser pai era preciso de vez em quando dizer não aos filhos –, como se explica que de repente tenhamos de inventar algo para o que parece ter se rompido nessa maneira de transmitir? Hoje, há cada vez mais a ideia de que esse lugar de poder, de exceção, diferente dos outros lugares - que era o de Deus, do rei, do chefe, do mestre - é um lugar que não tem mais necessidade de existir. Nós decidimos. Portanto, esse lugar não tem mais importância, não tem mais necessidade de ser. Está caduco, de certo modo. Esse lugar diferente dos outros não tem mais existência reconhecida como algo natural. Muito pelo contrário, o neoliberalismo vem dizer que não há necessidade de regular coisa alguma, que a mão invisível vai regular as coisas, sozinha. E que espontaneamente vamos poder organizar as coisas em nossa vida social, sem nenhuma necessidade de um lugar diferente que viria, além disso, limitar uma possibilidade estritamente privada e singular em cada um. Todos os lugares dão agora impressão de se equivaler pelo simples fato de que um lugar diferente dos outros não é mais reconhecido como natural. Agora somos autônomos. Não há mais sujeição do indivíduo. Não há mais heteronomia. Temos um projeto, uma orientação de imanência. Não há mais transcendência. Com isso, entre o humano, a sociedade concreta, a família e o sujeito, há uma ruptura de solidariedade. Pois, a prescrição do limite necessário à humanidade se vê, de certo modo, negado, questionado, julgado como devendo não mais existir. Hoje, o objeto de consumo que nos é proposto cada vez mais rapidamente, de uma maneira cada vez mais importante, quer nos dar a ilusão, nos fazer pensar que justamente não se deve mais consentir nessa perda de limite, de gozo. Pelo contrário, diz que hoje devemos aproveitar o que se apresenta. Portanto, deveríamos banir de nosso trajeto a necessidade da perda. E eis aí algo que faz virar a cabeça de todo o mundo. É algo que nos atormenta profundamente e que me parece ser a mutação do vínculo social que enfrentamos hoje com uma série de consequências. Se há ruptura quanto à necessidade da perda, então a noção de proibição se revela também completamente caduca. Por que uma proibição? Para que servem as proibições? Não há mais razão de proibir. Nada de proibição. E é o que constatamos hoje. Nada de regulação necessária. Aliás, vocês percebem o quanto isso é muito proveitoso para o mercado, para a economia de mercado. Não há mais necessidade de perda. Mas com isso, curiosamente, também não há transcendência religiosa. E surge a confusão. Porque também não há mais transcendental, nem tampouco posição de exterioridade. As consequências dessa mutação, no nível da sociedade concreta, onde a necessidade da perda não é mais reconhecida como natural, têm um efeito extremamente importante, porque isso deslegitima todos os que têm a tarefa de prescrever a necessidade da subtração do gozo para poder crescer. Isso deslegitima o pai, que então se pergunta por que deve dizer não. Deslegitima o professor que se sente mal, às vezes, quando deve avaliar negativamente o trabalho de um aluno. Deslegitima o político. E isso através do processo da educação, da maneira como os pais lidam com a criança, deslegitimados nesse lugar, se sentem incompetentes para poder intervir. Como hoje essa diferença de lugar não é mais reconhecida no discurso social, não temos outra saída senão querer a todo momento evitar o conflito. O que nos organiza hoje é o evitamento do conflito. Na Bélgica e na França, 60% das crianças têm televisão em seu quarto. Ter uma televisão no quarto, para cada um dos filhos, é um modo extremamente eficaz de evitar o conflito no seio da família, de dia, de noite, para saber qual programa se vai escolher. Assim, cada um pode gozar tranquilo, sozinho. Deixamos as crianças assim, durante todo esse período dos 2 aos 15 anos. Durante uns 15 anos, elas são deixadas em seu gozo privado, ou seja, podendo sempre evitar ter de se confrontar com o outro para saber como, afinal, vão deixá-las seguir seu caminho. E isso justamente durante a infância e a adolescência, um momento em que alguma coisa deveria vir ajudá-las a organizar a regulação de sua pulsão mortífera, destruidora, assim que se deparam com o outro. Onde seria preciso um trabalho para tentar renunciar, nem que seja um pouco, a essa realização mortífera, geralmente a criança se vê hoje entregue a si mesma, abandonada. Literalmente abandonada ao seu universo pessoal. De tal modo que, quando tiver 16, 17, 18 anos, o que acontecerá por ocasião de um desgosto amoroso, um desgosto de estudante ou de profissão? Um desgosto, alerto, que os pais com certeza não poderão lhe evitar. Portanto, se há uma coisa que os pais devem transmitir a seus filhos, é a como falhar. E assim, como se surpreender que adolescentes, que durante 15 anos puderam escapar a todo trabalho sobre seu próprio mundo pulsional, a todo trabalho cultural para assumir e elaborar psiquicamente essa alteridade, como se surpreender que, quando um desgosto assim acontece (estou caricaturando, é claro), não encontrem nada de melhor a fazer senão se jogar pela janela ou sair dando tiros ao acaso?

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